Mais um "causo" vindo direto da minha infância!Quem nunca teve uma vizinha que mais parecia uma bruxa, quando era criança, nunca teve infância de verdade. O Chaves sabe bem. Eu tive a minha e, claro, morria de medo dela.
A bruxa morava na casa da esquina e raramente se via alguém entrando ou saindo de lá. Os muros eram altos, cobertos por hera e, debruçada sobre eles, havia a mais linda roseira que eu me lembro de ter visto.
Ah, eu adorava aquelas rosas! E minha tia Socorro também. Por conta disso, pelo menos uma vez por semana, eu "colhia" - pra não dizer "roubava" - um cacho delas para dar de presente para minha titia... Arrancava as rosas e saía correndo para prepar uma solução de soro, para mantê-las vivas por mais tempo.
Houve um dia, porém, em que a coisa não saiu como de costume. Bem na hora em que eu estava a postos para arrancar as rosas, o portão da casa da bruxa se abriu. Vi saindo por ele uma figura alta, magra, de rosto fino e queixo pontudo, toda vestida de preto e com uma vassoura na mão. Ai meu Deus! Era ela!
"Então é você?!", disse ela, vindo em minha direção e apontando a vassoura pra mim. "É você quem está arrancando minhas meninas?!"
"Minhas meninas? Como assim?", pensei. "Será que essas rosas são crianças enfeitiçadas?!", deduzi, apavorada, em silêncio. "E eu vou ser uma delas! Aiiinnn!..."
Congelei. Não conseguia subir nem descer do muro. A bruxa se aproximou, me ajudou a descer com cuidado e continuou.
"Eu tenho tanto ciúme do meu jardim que, se você soubesse, nem passaria em frente!", disse. "Pronto! A bruxa vai me enfeitiçar agorinha mesmo!...", concluí. "Vem cá!", disse transtornada, me arrastando pelo braço para dentro do seu quintal.
Lá dentro vi algo que até hoje não me sai da memória: o jardim mais lindo do mundo! Havia rosas e flores de todos os tamanhos e perfumes, com cores que sequer sabia que existiam. Algumas delas eu nunca mais pude ver.
A "bruxa" foi me contando histórias sobre a origem de algumas flores, seus nomes e de quanto em quanto tempo elas brotavam. Por último, me fez um pedido.
"Me ajude a cuidar desse jardim. Não arranque mais rosas sem minha permissão! Quando você quiser alguma, me peça." E cortou uma delas delicadamente, com o auxílio de uma tesoura de jardinagem. "Leve essa com você e veja quantos dias ela vai durar longe das amigas."
Acenei que sim com a cabeça e saí de lá muda, como havia entrado. Aquela foi a última rosa que arranquei em toda minha vida.




